Ante omnia custodi cor tuum.

Julho 4, 2008 - No Responses

Guarda o teu coração acima de tudo, porque dele provém a vida.

Monique Labrune e Laurent Jaffro. Gradus Philosophicus, Mandarim, pg. 56.

Simplicidade.

Julho 2, 2008 - No Responses

A simplicidade é esquecimento de si, de seu orgulho e de seu medo; é quietude contra inquietude, alegria contra preocupação, ligeireza contra seriedade, espontaneidade contra reflexão, amor contra amor-próprio, verdade contra pretensão…o eu subsiste nela, é claro, mas como que mais leve, purificado, libertado.

Para que essas perpétuas voltas sobre si mesmo? Nunca acabaríamos de nos avaliar, de nos julgar, de nos condenar…Nossas melhores ações são suspeitas; nossos melhores sentimentos, equívocos. O simples sabe disso e nem se importa. Ele não se interessa suficientemente para se julgar. Ele não se leva nem a sério nem a trágico. Segue seu pequeno caminho, de coração leve, alma em paz, sem objetivo, sem nostalgia, sem impaciência. O mundo é seu reino e lhe basta. O presente é a sua eterniadade, e o satisfaz. Nada tem a provar, pois não quer parecer nada. Nada tem a buscar, pois tudo está ali. Há coisa mais simples que a simplicidade?

André Comte-Sponville, Pequeno tratado das grandes virtudes, do ensaio sobre a Simplicidade, Martins Fontes, pg. 170.

Julho 2, 2008 - No Responses

O tempo circula mal em minhas veias. Ao que parece, isso me dá uma coloração sombria, que destoa da motivação que hoje se deve estampar no rosto.

Frédéric Schiffter, Sobre o blablablá e o mas-mas dos filósofos. José Olympio, pg. 18.

Julho 2, 2008 - No Responses

Aceitareis por muito tempo um mundo que não passa de uma paródia de mundo, onde vossa própria vida é apenas um drama ruim?

Frédéric Schiffter, Sobre o blablablá e o mas-mas dos filósofos. José Olympio, pg. 41.

A vida como drama.

Julho 2, 2008 - No Responses

Quando dizemos que a vida é um drama, cremos não nos expressar muito bem. O drama designa a ação que se desenrola num palco, cujas consequências fatais adivinhamos, mas as quais, até o último momento, permanecem desconhecida.s A certeza de que o pior se dará in fini não é a presciência da maneira exata como ele se produzirá. Apesar de previsível e inelutável, o pior é sempre surpreendente. É nesse sentido que minha vida é dramática. No cerne de circunstâncias que ninguém pode enfrentar em meu lugar, que requerem minha força e meu discernimento, nunca sei onde me situo. Sinto-me perdido: ao mesmo tempo desnorteado e na perdição. Por mais que procure e fixe referenciais para mim, eu os apago à medida que me debato. Vã gesticulação que se dá ares de ação, ainda mais patética por eu tomar consciência dela e não poder fazer nada. Se viver é sentir-se perdido, a lucidez é saber-se perdido.

Frédéric Schiffter, Sobre o blablablá e o mas-mas dos filósofos. José Olympio, pg. 98.

Julho 2, 2008 - No Responses

Que é que tenho de fazer e que ninguém mais no mundo pode fazer em meu lugar?

Constantin Noica, As seis doenças do espírito contemporâneo, Record, pg. 58.

Julho 2, 2008 - No Responses

Sempre há tempo para proferir uma palavra, mas nunca para retirá-la.

Baltasar Gracián, A arte da sabedoria mundana, pg. 75,  Editora Best Seller.

Julho 1, 2008 - No Responses

A língua é um animal selvagem, e, uma vez solta, é difícil devolvê-la à jaula.

Baltasar Gracián, A arte da sabedoria mundana, pg. 98,  Editora Best Seller.

Junho 30, 2008 - No Responses

Certas alegrias só os poetas podem dar a si mesmos.

Fausto Wolf, A milésima segunda noite, Bertrand Brasil, pg. 238.

Junho 30, 2008 - One Response

De onde vem a solidão?

Cesare Pavese, Diálogos com Leucó, Cosacnaif, pg. 138.

À frente de si mesmo.

Junho 26, 2008 - No Responses

Ser moderno significa estar sempre à frente de si mesmo, num estado de constante transgressão.

Do capítulo “Emancipação”, Zygmunt Bauman, Modernidade Líquida (Jorge Zahar, pg. 37)

Junho 26, 2008 - No Responses

Que sçais je? O que sei eu?

Michel de Montaigne, do ensaio Montaigne, ou o Cético, em Homens Representativos, de Ralph Waldo Emerson (Imago, pg. 117).

Junho 25, 2008 - No Responses

só a vida existe

Verso do poema La Recoleta, Obras Completas de Jorge Luis Borges, Vol. 1 (Globo, pg. 16)

A índole do tempo é difícil.

Junho 24, 2008 - One Response

A índole do tempo é difícil. Ele é mais pálido que o irmão, o espaço, mais irriquieto, mais misterioso, mais difícil de penetrar, de julgar e de conhecer. Mais inteligente também. E menos confiável. É personagem cruel, nervoso, volúvel, propenso ao paradoxo, de instabilidade doentia. Dele se pode dizer que dorme com um olho aberto, está sempre com um pé atrás ou fora e não perde oportunidade de deixar a companhia e ir-se porque se entediou. Confiar nele é loucura a que muitos se deixam levar.

Esse indivíduo instável, tão pouco digno de confiança, sexualmente mal resolvido, dado a todos os vícios e a todas as drogas, é sedutor profissional. Noite adentro, com luz de velas, conta histórias maravilhosas em que o amor se mescla à guerra, as quais o mais das vezes terminam mal. Diferentemente do irmão, transbordante de saúde, um tanto corado, sempre criança, pode-se dizer que o tempo não tem idade. Ele chega, aqui ou ali, a dar cambalhotas como um jovem. De súbito está muito velho. É capaz, contudo, de seduzir quem ele queira. E não se priva desse dom. Dons, ademais, não lhe faltam - tem todos. Usa-os, abusa-os. Não pára de elaborar projetos e de construir magníficos castelos no ar, destinados a desaparecer. O cúmulo é que chega a tomar verdadeiramente o poder, a fazer verdadeiramente fortuna e a conhecer o verdadeiro amor. É tão imprevisível, que dele sequer é possível desconfiar completamente.

Ele não é bom de amar. Tem um fraco pela morte, pelos fins trágicos, pelas paixões que sucubem e pelas demoradas ruínas. Pergunta-mo-nos por vezes se não está possuído pelo mal. Esse rapaz tão sedutor, que se confunde com o entusiasmo e com a esperança, tem um lado demoníaco. Por suas terras, tão imensas, também elas, que não se lhes vê o fim, nunca se passa duas vezes. Ele convida uma vez, com muito encanto e satisfação. A primeira estada, todavia, também é a última. Que não se acalente a esperança de voltar: “A meus domínios”, declara ele com odiosa soberba, “não se volta jamais”.

Pode-se suspeitar que o tempo seja dotado de poder algo secreto, insidioso, desmedido. Ele vangloria-se com muito gosto, e talvez sem falsidade, de dominar a todos os que têm a sorte ou o azar - como saber com ele? - de cair em seus domínios. Atribuem-se-lhe crimes inomináveis. Mas também muitos êxitos. Ele é quase sempre sombrio e sinistro, mas também sabe ser alegre e jovial. Transborda de idéias, de receitas, de lembranças, de histórias arrepiantes e de contos de fadas para as crianças. Todos os que têm projetos, empreendimentos, esperanças, bem como temores, procuram-no para que os auxilie. É fabricante de sonhos, doador de conselhos, emprestador também, e ilusionista, e agitador. É tão contraditório, que uns afirmam que ele os entedia e lhes provoca bocejos, enquanto outros o vêem, ao contrário, como animador prodigioso, mercador de ilusões e armadilhas, lanterna da noite e luz da esperança, professor de energia, mestre em quase todas as coisas. Profeta e mentor. Ninguém é mais misterioso. Nada mais enigmático. Nada mais fascinante.

Jean d’Ormesson, Quase nada sobre quase tudo (Record, pg. 32, ligeiramente adaptado)

Sofro, Lídia, do medo do destino.

Junho 24, 2008 - No Responses

Sofro, Lídia, do medo do destino.
Qualquer pequena coisa de onde pode
Brotar uma nova ordem em minha vida,
Lídia, me aterra.

Qualquer coisa, qual seja, que transforme
Meu plano curso da existência, embora
Para melhores coisas o transforme,
Por transformar
Odeio, e não o quero. Os Deuses dessem
Que ininterrupta minha vida fosse
Uma planície sem relevos, indo
Até o fim.

A glória embora eu nunca haurisse, ou nunca
Amor ou justa ’stima dessem-me outros,
Basta que a vida seja só a vida
E que eu a viva.

26-5-1917
Ricardo Reis

Texto crítico das Odes de Fernando Pessoa/Ricardo Reis, Imprensa Nacional, Casa da Moeda pg. 168, de Silva Bélkior.